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ECONOMIA

Cheias do Taquari alteram perspectivas do mercado imobiliário

Corretores, proprietários e locatários observam mudanças no perfil do setor, enquanto são desenvolvidas novas políticas públicas para a construção civil na região

Ruas como a Coronel Müssnich possuem trechos que se transformaram após duas enchentes que acumularam cerca de um metro e meio de água nos estabelecimentos do local (Foto: Marcelo Grisa)

O mercado imobiliário da região vive em expectativa diante das duas cheias em menos de três meses no Rio Taquari. As elevações nas águas provocaram mudanças na maneira como os locatários escolhem onde morar, além de causarem a mudança de endereço de muitos negócios no Vale.

Deise Mantovani tem 25 anos de experiência no ramo de confecções para noivas. Desde 2018, tinha sua loja conceito, que leva seu nome, instalada na Rua Coronel Müssnich. O espaço, com móveis projetados em MDF, teve grandes perdas devido à enchente do começo de setembro, às vésperas dos meses de maior frequência de casamentos na região. Um metro e meio de água dentro do estabelecimento foi o suficiente para acabar com a estrutura física do local.

Com o apoio de outros lojistas do ramo, conseguiu atender clientes que já tinham vestidos alugados, mas precisou reinstalar-se em um imóvel onde a água não chegasse. “Eu não sei como tive forças para fazer tudo. No final da primeira semana após a enchebte, fui à imobiliária depois de pesquisar online por uma casa que pudesse continuar os trabalhos”, conta Deise, que tinha 25 clientes para entregar vestidos prontos apenas em setembro.

Segundo a lojista, a imobiliária estava lotada. “Todo mundo desesperado atrás de imóveis. Todos perderam suas casas ou como eu, seus negócios. Apenas a casa que eu peguei recebeu 15 ligações, já que faltavam opções”, lembra.

Desde então, a situação não mudou muito no ramo. O sócio-proprietário da Imobiliária Estrela, João Guilherme Ruschel, entende que, após o choque com as enchentes recentes, começa a se estabelecer um novo momento no mercado. “Nem todo mundo vai encontrar imóveis agora. O Vale não tem capacidade para absorver todas essas pessoas que estão em áreas alagáveis”, avalia.

Segundo ele, é necessária a construção de soluções por meio dos poderes públicos e agentes privados para solucionar a questão. “Daqui a pouco surge um imóvel em oferta, mas ele logo será alugado. Isso é triste, porque estamos alugando, sim, mas ninguém quer que isso ocorra nessas circunstâncias”, afirma.

Mediação

Adiel Krabbe, da Imobiliária Nova Era, diz que o foco agora é nas soluções. “Nós continuamos a mediar as relações entre os proprietários e locatários, que é o nosso serviço. Eu busco encontrar formas de adaptar imóveis, às vezes pensando em mudar o caráter de um mais comercial para um residencial, para que o dono consiga alugar”, aponta.

De acordo com o corretor, é necessário que todas as partes sejam razoáveis. Os proprietários precisam, por vezes, conter o preço para que seja possível fazer a locação. Os novos locatários, por sua vez, precisam entender que, mesmo assim, não é possível encontrar o local certo no preço certo de forma imediata. “Tivemos dias, depois das duas enchentes, em que pessoas chegaram aqui mais alteradas. Acontece. Não podemos levar para o pessoal. Elas perderam tudo e precisam ter um lugar seguro”, lamenta.

“Não vai se criar”

O delegado da 17ª Sub-região do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci), Marco Aurelio Munhoz, atenta que, apesar da menor oferta atual, a situação ainda não está plenamente estabelecida. “Todo esse movimento ainda é muito recente. O mercado vai se regular, e quem tentar fazer algo fora da realidade agora não vai se criar”, alerta.

Para ele, é necessário aguardar possíveis mudanças na regulação por parte do poder público. “Não temos capacidade para gerir esse problema. É possível que mudem as cotas do rio, e isso impacta o mercado, por exemplo.”

Munhoz aponta o exemplo de Lajeado, onde a prefeitura emitiu, na última semana, um decreto que permite a desapropriação de áreas sensíveis às inundações. Outras regiões do país que passaram por situações semelhantes em épocas anteriores, como Blumenau (SC), superaram a adversidade também no campo da construção e da moradia. “Acredito que é necessário um esforço conjunto de toda a sociedade. O Taquari passou por algo semelhante em 1941 e hoje é um Vale pujante. Logo, é algo que deve passar”, afirma.

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